Prefeitura de Bragança, no Pará, “investe” quase 1 milhão em uma única contratação artística durante tradicional festival junino.

 

Isso não é mais novidade para nenhum contribuinte da máquina pública. A diferença é que alguns poucos cidadãos se indignam, enquanto outros aplaudem e seguem entorpecidos pela própria ignorância. 

Muitas prefeituras Brasil a fora cometem esse mesmo equívoco, de utilizar o Fundo Nacional de Cultura para promover mero entretenimento a fim de fortalecer a imagem dos governos locais e manipular a opinião pública. 

É nessa ciranda do pão e circo que o brasileiro "dança"!

Ora, é natural que na gestão pública, os recursos com destinação específica, como é o caso do Fundo Nacional de Cultura, sejam aplicados para o objeto ao qual se destina. Mas, o que acontece de fato é uma certa confusão que os gestores fazem acerca da finalidade dessa verba e, na maioria das vezes isso é intencional.

Os principais objetivos do FNC são:

1. Democratizar o acesso a bens culturais em todo o país;

2. Descentralizar os recursos, promovendo e estimulando a produção cultural regional;

3. Poteger as expressões culturais que compõem a diversidade da sociedade brasileira.

Só de ler essas poucas linhas, qualquer pessoa com capacidade mínima de raciocínio crítico, vai perceber que o descontentamento não se trata de "fofoca da oposição", como as pessoas ligadas afetiva ou economicamente à municipalidade de Bragança costumam taxar quaisquer comentários que contradigam o discurso da SECOM.

 

Ao que nos consta, o cantor Zé Vaqueiro não é natural de Bragança, nem produz cultura bragantina. Portanto, um contrato de R$ 700.000,00 (quase 1 milhão de reais), para uma simples apresentação na cidade, como de fato ocorreu na noite do último 05 de junho, é no mínimo escandalosa.

É lúcido esclarecer que o cantor é livre para estabelecer o valor que cobre os custos da sua apresentação. Por outro lado, da parte da Prefeitura, a reflexão é outra: "dada às demandas da cultura em Bragança, é razoável "investir" quase 1 milhão de reais em um único show, no mais importante festival da cidade?". 

Investir em cultura é totalmente diferente de investir em entretenimento! 

Uma apresentação desse tipo, paga nessas cifras e ainda com dinheiro do FNC, é um descalabro contra os produtores e fazedores de cultura em Bragança, que inclusive é a cidade mais antiga do Pará e possui um patrimônio cultural riquíssimo em valor simbólico, mas, completamente relativizado por gestores populistas.

Até onde investigamos, não existe nenhum grupo cultural que tenha recebido da Prefeitura Municipal de Bragança, valor semelhante ao que o famoso cantor recebeu por algumas horas de show, na cidade conhecida como a "Pérola do Caeté". 

Geralmente esses grupos e associações produtoras de cultura na região sobrevivem do resto do "pão que cai da mesa" e com a pouca ajuda angariada através de campanhas de financiamento coletivo (como donativos, rifas, bingos e afins...).

Essa inversão de prioridades, em parte se deve ao que realmente o público bragantino tem valorizado nos últimos anos: preferindo artistas nacionais aos locais. Isso acontece também nas cidades circunvizinhas, onde a eficiência dos prefeitos é medida por essa régua. Em Tracuateua, por exemplo, grandes são as queixas devido ao fato de que a prefeitura não tem "cacife" para trazer atrações como as que se apresentam em Bragança.

Tal crítica contumaz, também tem sido um brado de artistas como Elba Ramalho, Flávio José, dentre outros nordestinos que se incomodam bastante com o que estão fazendo com as tradicionais festas juninas, como as que acontecem em Campina Grande e Caruaru. 

Seja em Bragança ou em Campina Grande, os artistas nacionais imperam sobre as atrações locais, pois atraem um público muito maior e a presença da massa se converte em capital político, servindo como prova social de que o governo municipal é forte! 

Acredito que o sentimento de desvalor entre artistas locais de Bragança e os tradicionais cantadores nordestinos, ainda fiéis à zabumba, ao triângulo e à sanfona raiz, seja compartilhado. 

Tudo indica que "o pau que dá em chico, dá em Francisco!". Embora, no caso da cidade do nordeste do Pará, as rabecas só tocarão firmemente no festin de Benedito, "O preto". Onde esmoleiros passam o ano coletando donativos, sob sol forte, percorrendo longas distâncias, para aplicar na festividade que é coordenada pela irmandade. Mas, quem não precisa fazer esforço mesmo, é a turma que recebe os cachês milionários da Prefeitura por algumas horas de show!

Essa moda de prefeitos usarem o dinheiro público para autopromoção do governo que representam pelo voto popular é costume antigo aqui no Brasil e, pasmem... conta com um exército de apoiadores que dependem dos comentários apaixonados, feitos nas redes sociais da prefeitura para garantirem a folha de pagamento ao final do mês. E assim, o ciclo vicioso se retroalimenta, colocando para o escanteio os princípios basilares da correta administração pública.

Confira a lista dos valores pagos a outros artistas que irão participar do Festival 

- Éric Land. O valor da apresentação custou para os cofres públicos de Bragança R$ 350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais).

 

- Silvânia Aquino e Berg Rabelo: O valor do show custou R$ 500.000,00 (Quinhentos mil reais)

 

Banda Seu Desejo: O valor da apresentação custou R$ 550.000,00 (Quinhentos e cinquenta mil reais).

 

Total das contratações descritas acima: R$ 2.100.000,00 (dois milhões e cem mil).

  

Espera-se que o responsável pela municipalidade, reflita na possibilidade de outras alternativas para conquistar o eleitorado, como por exemplo: buscando recuperar as ruas e ramais duramente afetados pelo inverno rigoroso que se abateu sobre a região e/ou buscando atender dignamente membros da sociedade civil que trazem alguma proposta de melhoria para seus bairros e comunidades... Focar em um governo que cuide das pessoas e seja democrático... transparente, ainda configura o melhor dos investimentos na carreira de um gestor público! 

 

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