Diocese de Quelimane, em Moçambique, realiza funeral de bispo brutalmente assassinado
Num ambiente marcado por lágrimas, orações e cânticos, a cidade de Quelimane despediu-se esta sexta-feira de Dom Osório Citora Afonso, numa cerimónia fúnebre que reuniu milhares de fiéis e diversas personalidades da vida política, social e religiosa do país.
As exéquias reuniram membros do clero, religiosos, autoridades civis e políticas, num ambiente de profunda consternação e homenagem à vida e missão pastoral do prelado.
PRESENÇAS E DESTAQUE
Entre as autoridades presentes destacaram-se o Presidente da República de Moçambique Daniel Chapo; o Presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM) Lutero Simango; o Presidente do Conselho Autárquico da Cidade da Beira Albano Carige; e o Presidente do Conselho Autárquico da Cidade de Quelimane Manuel de Araújo.
Estiveram igualmente presentes o governador da província Pio Matos; o Secretário de Estado na província Avenilo Muchine; a Presidente da Assembleia da República Margarida Adamugi Talapa; a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Maria Manuela dos Santos Lucas; o Ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos Mateus Saize; e a deputada da Assembleia da República e antiga chefe da diplomacia moçambicana Verónica Macamo.
O evento contou ainda com a presença do Núncio Apostólico em Moçambique, Dom Luís Miguel Muñoz Cárdaba, representante do Santo Padre, e do Embaixador de Moçambique junto da Santa Sé, Raul Domingos.
IGREJA E SOCIEDADE CIVIL
Marcaram também presença o Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique e Arcebispo de Nampula Dom Inácio Saúre; o antigo Presidente da Assembleia da República Eduardo Mulembwè; o Conselheiro do Presidente da República Francisco Mucanheia; e o representante da Comunidade de Sant’Egidio em Moçambique Padre Rolando Curzi.
Participaram ainda o Reitor da Universidade Católica de Moçambique Padre Sungo; o Chanceler da mesma instituição e Bispo de Pemba Dom Luís Fernando Lisboa; além de vários bispos, entre os quais o de Niassa Dom Alberto Vera; de Tete, Dom Diamantino Guapo Antunes; de Alto Molócuè Dom Ângelo Estêvão; de Manica, Dom Francisco Chimoio; o Bispo Auxiliar de Maputo Dom António Juliasse; e o Bispo de Caia Dom Antônio Bogaio.
Também estiveram presentes vários outros bispos das dioceses moçambicanas, sacerdotes, religiosos, representantes de diferentes confissões religiosas, membros do corpo diplomático, dirigentes políticos, autoridades governamentais e autárquicas, além de milhares de fiéis provenientes de várias partes do país.
Entenda o caso:
Dom Osório Citora Afonso, bispo da Diocese de Qualimane, cidade portuária e capital da Província da Zambézia, em Moçambique foi brutalmente assassinado no último dia 06 de junho/2026, no corredor da Casa Episcopal, quando chegava de um compromisso pastoral, no período noturno. O fratricídio só veio à tona ao amanhecer, quando encontraram o corpo do prelado tombado e envolto em sangue.
Segundo informações obtidas por meio de correspondentes internacionais em Moçambique, o tiro foi disparado por uma arma usada por forças de guerra, do tipo AKM e atingiu diretamente o coração de Dom Osório, o que provocou sua morte instantânea.
O caso de violência hedionda contra uma liderança religiosa chocou o país, produzindo um misto de dor e revolta já que casos de assassinatos misteriosos parecem ser comum naquele país e os desfechos costumam não ser elucidados pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal - SERNIC.
No Vaticano, o Papa Leão XIV descreveu o episódio como "Grave ato de violência" e manifestou profunda tristeza pelo falecimento do bispo, que também estava incubido da função de administrador apostólico da Diocese de Beira, cidade localizado ao centro do país, pertencente à província de Sofala.
Natural de Ribaué, Província de Nampula, Osório Citora Afonso fora ordenado sacerdote em 2002, pelo Instituto dos Missionários da Consolata. Após longa trajetória internacional em Roma e na República Democrática do Congo, exercendo as mais diversas funções eclesiásticas, Osório fora nomeado Bispo Auxiliar de Maputo (capital do país), em 2023, pelo Papa Francisco.
Foi eleito Bispo de Quelimane no dia 25 de julho de 2025. Sua posse canônica foi festivamente celebrada pelos fiéis daquela diocese. Ao chegar na cidade, Dom Osório se prostrou e beijou o chão, realizando um gesto simbólico que representa respeito pelo lugar em que o prelado haveria de desenvolver seu pastoreio, cujo lema era: "Lucerno Pedibus Meis" (Luz para os meu pés!).
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| Imagem: Dom Osório celebrando missa durante visita pastoral. |
Um bispo ecumênico em um país em crise!
Dom Osório era conhecido por seu carisma e também pelo respeito às demais tradições religiosas. Era tido como "um bispo ecumênico e promotor do diálogo", atuando em defesa da paz e da boa convivência, em um país dividido pela política. Moçambique vive um clima de profunda instabilidade política e social, desde as últimas eleições gerais de 09 de outubro de 2024.
Até janeiro desse ano, a Plataforma DECIDE, que consiste em uma Organização da Sociedade Civil Moçambicana, sem fins lucrativos, dedicada à Monitoria dos processos democráticos em Moçambique, contabilizou 315 mortes por disparos, cuja tendência desse número é subir. O caso do bispo de Quelimane é um exemplo!
A história de Moçambique é marcada pela violência e concentração de poder nas mãos da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), cujo partido iniciou uma guerra civil com a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique).
O Escritório da Igreja Anglicana de Moçambique e Angola, através de seu Acebispo, Dom Vicente Msosa, também exigiu esclarecimentos acerca da morte do Bispo Católico Apostólico Romano.
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| Arcebispo Anglicano, durante pronunciamento. |
Reformas na diocese
Dom Osório Citora havia sinalizado que iniciaria uma profunda reforma na estrutura eclesiástica da Diocese de Quelimane e, recentemente, havia condenado os diversos casos de corrupção supostamente praticados por padres nas paróquias daquela igreja particular, durante um sermão. Analistas vinculam as últimas falas do bispo, ao recente caso de violência que ceifou sua vida.
Tribunal mantém padre e dois suspeitos em prisão preventiva
O Tribunal Judicial da Província da Zambézia determinou a prisão preventiva para os três indivíduos detidos por alegado envolvimento no homicídio de Dom Osório Citora Afonso, Bispo da Diocese de Quelimane, durante a audiência de custódia. Entre os indiciados, destaca-se um sacerdote da Igreja Católica.
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| Padre Novaes Amade (à esquerda), é o principal suspeito da morte de Dom Osório Citora Afonso. |
De acordo com a reportagem de uma TV local, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) quebrou o silêncio e pronunciou-se publicamente pela primeira vez sobre o estágio das investigações, logo após a sessão em tribunal. As autoridades confirmaram que o prelado foi vítima de uma morte violenta, tendo sido utilizado uma arma de fogo do tipo AK-M.
Até o momento, já foram realizados exames periciais médico-legais e balísticos, tendo sido analisado o projéctil extraído do corpo da vítima e o invólucro recuperado na cena do crime. Estão também em curso análises de DNA e levantamento de vestígios biológicos para consolidar as provas.
Embora o SERNIC trate os detidos nesta fase como “potencialmente suspeitos”, o magistrado considerou haver indícios suficientes para manter o padre, o guarda e o jardineiro detidos em prisão preventiva, enquanto prosseguem as diligências investigativas para apurar as reais circunstâncias.
Papa Leão XIV nomeia substitutos de Dom Osório para as Dioceses de Quelimane e Beira
Dom Luís Miguel, Núncio Apostólico em Moçambique, durante as exéquias de Dom Osório Citora anunciou Dom Estêvão Ângelo Fernando, Bispo de Alto Molocuè, como Administrador Apostólico da Diocese de Quelimane. Dom Estêvão continuará a guiar a Diocese de Alto Molocuè e, ao mesmo tempo, estenderá o seu ministério sobre Quelimane, com zelo e presença junto às comunidades.
Dom Antônio Bogaio (atual Bispo de Caia) fora nomeado para administrar a Arquidiocese da Beira.
Da redação
FOLHA 390



