Intervenção americana na Venezuela pode inaugurar uma nova geopolítica na América Latina
* O autor é jornalista, sociólogo e licenciado em Geografia
O mais recente episódio da crise venezuelana reacendeu os debates acerca da soberania de países latino-americanos e ressuscitou o fantasma da intervenção americana no continente.
Ora, não era mais nenhuma novidade que sob Maduro a Venezuela já não vivia em uma democracia há muito tempo! A delicada conjuntura política do país ficou ainda mais fragilizada após as últimas eleições nacionais, onde Nicolás Maduro foi declarado "eleito" com 51,2% dos votos, sob a promessa de reunificar a base governista, ampliar programas sociais e derrubar as sanções dos EUA.
Entretanto, a Organização dos Estados Americanos (OEA) confirmou fraude no processo eleitoral e denunciou o regime de Maduro por perseguição política a adversários. Mais de duas mil pessoas foram presas por participarem de atos públicos contra a fraude eleitoral e Edmundo González, candidato da oposição, precisou buscar asilo político na Espanha, por temer pela própria vida.
Vários países democráticos se posicionaram contra a legitimidade do mandato de Maduro e consideraram o governo como "ditatorial". O Brasil, através da sua chancelaria, se manteve "em cima do muro", enquanto boa parte dos governos ditatoriais, parabenizaram Maduro pelo sucesso nas falsas eleições.
Na contramão de muitos simpatizantes do ditador no Brasil, temos que falar a verdade: não existe soberania na Venezuela! Embora o presidente Lula tenha recebido Maduro, em maio de 2023, com honras de Chefe de Estado.
Como falar que um país é soberano se o processo eleitoral foi uma fraude e não há alternância de poder a décadas? Que país soberano condena à diáspora seus cidadãos? Só no Brasil, são milhares de venezuelanos vivendo em condições de extrema vulnerabilidade, por terem sido forçados a saírem de seu país para não morrerem de fome ou mesmo encarcerados por oposição ao regime.
Em Manaus, visitei em agosto/2025, um núcleo social de venezuelanos, nas proximidades da Rua Joaquim Nabuco (centro da capital amazonense) e pude conversar com vários deles acerca da situação em que viviam no país chavista. Os relatos foram unânimes: "En Venezuela, no hay democracia!". Atualmente, os refugiados estão organizados em uma Associação, a Assoveam (Associação dos Venezuelanos do Amazonas). Ali, os refugiados tentam uma nova vida no Brasil, através do empreendedorismo de rua.
Em que pese, na égide das narrativas dos pseudo intelectuais brasileiros o que se constata é que os mesmos ainda mantém uma visão idílica acerca da utopia latino-americana de luta e resistência. Mas, na realidade, o continente vive constantemente sob ameaça de governos com arroubos autoritários, travestidos de democracias socialistas.
Há quem ainda afirme que tudo se resume ao imperialismo norte-americano, na busca desenfreada pelos recursos econômicos do país. O que não deixa de ser verdade, considerando que o Governo Trump traz como filosofia a estratégia de tornar a América grande e forte novamente (America Great Again!).
Mas, seria ingênuo pensar que nesse jogo de poder, apenas os EUA fossem os vilões da história, quando o chavismo foi quem primeiro rompeu com o multilateralismo, estatizando as petroleiras no auge da era de ouro da Venezuela e banindo os americanos da participação na exploração do recurso, através das extintas multinacionais no país.
Estatização esta, que só atendeu aos interesses malignos de Hugo Chávez e seus asseclas, servindo ao projeto corrupto de perpetuação de poder e condenando o seu próprio povo à pobreza estrutural. Na América Latina, mas também na África, essa conversa de que os imperialistas são os únicos praticantes da vilania é uma narrativa antiga e muito propalada também por aqui.
Do ponto de vista econômico e geopolítico, o recurso só serve a quem o domina e, no caso venezuelano, o petróleo nunca foi propriedade do povo venezuelano, nem mesmo a riqueza obtida com a venda da commoditie, ainda que as empresas fossem estatais [tudo não passava de uma estratégia política].
Quem é Maduro para falar do imperialismo americano? Em dezembro/2023 o ditador realizou um plebiscito nacional e iniciou uma disputa para tomar à força, parte do território da República Cooperativa da Guiana, o Essequibo. A estratégia era se fortalecer politicamente e também explorar as abundantes reservas de petróleo da região, que não pertence à Venezuela.
O movimento colocou em alerta a comunidade internacional, especialmente a CARICOM - Comunidade do Caribe, que é um bloco econômico formado por 15 países e 5 territórios caribenhos. A Guiana, é um país independente e soberano desde 1966 e um dos membros do bloco.
A Casa Branca já vinha pressionando Maduro por conta do seu suposto envolvimento com os Cartéis de drogas e com a extração ilegal de ouro, resultando na evasão de divisas e enriquecimento ilícito. Em contrapartida, Maduro desdenhou do presidente americano e ignorou todos os avisos, mantendo seus posicionamentos e se confiando em sua base política.
Os EUA, então passaram a enviar navios de guerra para a região do caribe e a fazer exercícios militares no espaço aéreo da Venezuela, até finalmente realizar a operação que culminou com a prisão do ditador e sua esposa.
Nesse novo capítulo da triste história da Venezuela observamos que é intelectualmente impossível qualquer advocacia em favor de um ditador, quando os fatos falam por si! Na existência de algum resquício de dúvida, o ideal é perguntar aos próprios venezuelanos acerca do que pensam do governo. Como diz o ditado: Só conhece o convento é quem vive dentro dele!
Maduro governou todo esse tempo com o forte apoio de Rússia, Irã, Nicarágua, China, Cuba, Coreia do Norte e outras micro ditaduras africanas. Todos com pleno interesse nos recursos naturais do país latino-americano ou em algum favorecimento financeiro advindo do petróleo estatal.
A prisão do ditador deve inaugurar uma nova geopolítica na América Latina, mas não deve resultar em mudanças imediatas na política interna da Venezuela, por se tratar de um quadro complexo de longa trajetória do chavismo, que impactou substantivamente a formação da identidade coletiva do povo e na estrutura de nação, na qual a Venezuela foi transformada.
Como latino, anseio por uma Venezuela livre e soberana.
